Movimento de hip hop na Grande João Pessoa denuncia mortes de três MC's em uma semana

Movimento de hip hop na Grande João Pessoa denuncia mortes de três MC's em uma semana
Em meio à pandemia de Covid-19, agentes e ativistas culturais de Jo√£o Pessoa denunciam mortes e temem persegui√ß√£o. Depois de três MC's morrerem em uma semana, sendo dois deles assassinados, o Hip Hop da PB resiste

Roan Nascimento/Arquivo Pessoal

"A paz nunca existiu pra gente e nunca vai existir. Eu pe√ßo é luta", disse Yakuza, ativista cultural, rapper e membro da Batalha do Coqueiral, em Jo√£o Pessoa. A fala do jovem reflete o sentimento de indigna√ß√£o que toda a comunidade e movimento do Hip Hop, Slam e Rap paraibano est√£o passando. Em menos de uma semana, três MCs de Jo√£o Pessoa foram mortos, sendo dois deles assassinados.

Conhe√ßa o slam, batalha de poesia que surgiu nos EUA e ganhou espa√ßo na Paraíba

Participantes de evento de rap em Jo√£o Pessoa denunciam agress√Ķes de policiais militares

De acordo com a Polícia Civil, no dia 24 de julho, o corpo de Johnatan Felipe, conhecido como Jhonny, que estava desaparecido em Santa Rita, foi encontrado com marcas de tiro na cabe√ßa e tórax, sinais de tortura, amorda√ßado e com os bra√ßos amarrados, no Bairro das Indústrias. Dois dias depois, em 26 de julho, Gacsiliano Leite Lima, Gacs MC, levou 9 tiros no Castelo Branco.

Ainda segundo a Polícia Civil, mais detalhes n√£o podem ser dados. Apesar disso, informa que os assassinatos est√£o sendo investigados pela Delegacia de Homicídios de Jo√£o Pessoa.

J√° MC Loco, Mezak Queiroz, foi atropelado e sofreu uma parada cardíaca na mesma semana. Ele também estava desaparecido, segundo informa√ß√Ķes de pessoas de dentro do Movimento Hip Hop da Paraíba, que preferiram n√£o serem identificadas nesta matéria.

Perseguição da cultura e marginalização da juventude

Desde 2019, participantes de eventos de rap em Jo√£o Pessoa denunciam interven√ß√Ķes violentas da Polícia Militar. As batalhas e slams s√£o eventos comunit√°rios de música e arte, feitos de forma gratuita em pra√ßas públicas, que ganharam for√ßa na capital da Paraíba principalmente nos últimos dois anos.

Um dos participantes desses eventos da cidade procurou o G1 e pediu para ter sua identidade preservada. Ele relata que amea√ßas sempre aconteceram, mas o movimento, organiza√ß√£o e participantes dos eventos n√£o tiveram ideia da dimens√£o do problema até ent√£o. Ele afirma que essas violências, incluindo os assassinatos, podem estar ligadas a milícias que atuam dentro da Regi√£o Metropolitana de Jo√£o Pessoa e disputam o controle de bairros e comunidades.

Este mesmo jovem fugiu da cidade, por medo da persegui√ß√£o. Hoje, ele est√° longe da Grande Jo√£o Pessoa. "Existe um medo hoje de v√°rios membros de batalhas dentro das periferias e muitas delas est√£o fazendo a mesma coisa que eu fiz, est√£o saindo da capital (...) A gente t√° tentando se eximir, ficar vivo, pra n√£o acabar nossa história, pra gente continuar fazendo nossa revolu√ß√£o com nossa cara".

"Às vezes o único tipo de cultura que tinha era o pared√£o tocando putaria, tocando ostenta√ß√£o. Talvez seja por isso que a gente t√° amea√ßado, por t√° pautando um mundo diferente, onde o cidad√£o olha um pra cara do outro e reconhece um irm√£o; uma irm√£; um trabalhador; uma trabalhadora explorada que passa necessidades. Essa é nossa puni√ß√£o. Nós estamos morrendo por levar cultura e ser militantes de um mundo melhor", desabafa.

O rapper e ativista cultural Yakuza n√£o acredita que os assassinatos possam estar ligados a grupos específicos, mas sim a uma violência e racismo sistem√°tico, que coloca jovens em situa√ß√£o de marginaliza√ß√£o. "O Estado é respons√°vel pela marginaliza√ß√£o da gente. Sempre fizeram isso e mais, eles criminalizam nossa cultura, n√£o só o rap, como toda a cultura de rua".

Gacs MC fazia parte do grupo Castelos da Mente e era ativo na Batalha do Castelo, no bairro do Castelo Branco, em Jo√£o Pessoa. J√° Johnny morava na cidade de Santa Rita e ajudou a construir a Batalha da Lagoa, uma das primeiras da Paraíba. Yakuza, que tinha liga√ß√£o próxima com ambos, lembra dos dois artistas com carinho. "Me falaram semanas antes que queriam sobreviver do rap, t√° ligado? Mas como que vai sobreviver do rap ou da cultura aqui na Paraíba? N√£o tem como, né".

O rapper afirma que esta é a situa√ß√£o de muitos jovens das periferias do estado, que sem oportunidade acabam escolhendo caminhos divergentes da arte, e é justamente isto que as batalhas feitas em pra√ßas públicas tentam combater. Os eventos s√£o comunit√°rios e seus participantes s√£o agentes de resistência ativos dentro de seus bairros, pra√ßas e comunidades, que buscam tirar jovens dessa situa√ß√£o de marginaliza√ß√£o, apresentando possibilidades e caminhos através da cultura.

Batalha do Coqueiral, em Jo√£o Pessoa. Antes da pandemia, evento reunia jovens na Pra√ßa do Coqueiral, em Mangabeira, com atra√ß√Ķes musicais e artistícas

Roan Nascimento/Arquivo Pessoal

Ele ressalta que esta n√£o é a primeira vez que tragédias atingem a comunidade. Yakuza lembra de outros companheiros do movimento mortos em Jo√£o Pessoa, como Playsson Mc, Yuri Dayvison e Pablo Escobar - nomes que resistem.

"O hip hop, o rap, luta contra isso. Contra esse estado genocida aí que só morre os nossos e a gente sofre essa repress√£o justamente por causa disso, porque eles sabem o papel da gente aqui e eles n√£o querem que a gente fa√ßa isso né... que a gente informe a sociedade, a periferia, a rua, do jeito que a gente consegue informar t√£o bem pelas letras, pelo di√°logo e pela vivência que é igual."

O Hip Hop fala

Um documento assinado por diversos movimentos, coletivos e partidos, de dentro e fora da Paraíba foi divulgado nesta quinta-feira (6). A nota denuncia o tratamento e as violências que a popula√ß√£o preta de favela est√° passando na Paraíba, em meio à pandemia de Covid-19. Além disso, o manifesto ressalta as atua√ß√Ķes violentas que aconteceram em algumas batalhas da cidade e reafirma uma possível inten√ß√£o de desestruturar e desarticular o movimento do Hip Hop Paraibano.

O documento é um pedido de aten√ß√£o e ressalta que est√£o sendo alvos de violência os organizadores, MC"s, poetas e todos que est√£o envolvidos em batalhas de rap e slams da cidade de forma ativa.

O G1 procurou o Ministério Público da Paraíba (MPPB), para saber se as denúncias feitas pela nota estavam sendo apuradas, mas até a publica√ß√£o desta matéria, nada foi informado.

Apesar disso, o movimento n√£o est√° sozinho. Junto a ele, mais de 80 institui√ß√Ķes e grupos de 6 estados diferentes assinam a nota e prestam solidariedade a todos os participantes de batalha, slams e do hip hop paraibano, que seguem em luta pela cultura da Paraíba.

"Nosso inimigo n√£o é apenas o invisível, ele é também visível e trabalha para o Estado que nos genocida todos os dias. Neste cen√°rio de violências e desvaloriza√ß√£o da vida do nosso povo preto e favelado, três MC's, dois pais, todos filhos, dentre eles um com apenas 18 anos foram mortos", diz a nota.

*Sob supervis√£o de Krys Carneiro