Estudos da Fiocruz-RO analisam ação do veneno de serpentes para busca de tratamento mais eficaz

Estudos da Fiocruz-RO analisam ação do veneno de serpentes para busca de tratamento mais eficaz
Trabalhos conseguiram reconhecimento mundial ao serem publicados em periódicos internacionais, sendo uma das revistas pertencente ao grupo Nature. No mundo, n√£o h√° tratamento adequado e com mais efic√°cia ao local ferido após a mordida. Células de defesa do estudo (neutrófilos) sendo ativadas após entrarem em contato com a toxina da serpente (Cr-LAAO). Nesse caso, s√£o as células que est√£o acumulando dentro delas uma organela chamada corpusculo lipídico, que armazena produtos aos neutrófilos fazerem o combate dos agentes agressores

Mauro Valentino Paloschi/Arquivo pessoal

Entender o processo de envenenamento de serpentes e a a√ß√£o no corpo humano, desde a ativa√ß√£o do sistema imune até as consequências diretas no tecido muscular, é um dos desafios de um grupo de pesquisadores do Laboratório de Imunologia Celular Aplicada à Saúde, da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz em Rondônia (Fiocruz-RO), que segue em curso.

Dois trabalhos científicos envolvidos no assunto desse mesmo grupo alcan√ßaram reconhecimento mundial após serem publicados em dois importantes periódicos internacionais especializados. Os projetos foram orientados pela doutora Juliana Pavan Zuliani, chefe do Laboratório de Imunologia Celular Aplicada à Saúde.

Um dos objetivos prim√°rios de ambas as pesquisas é ajudar a desmembrar o mistério por tr√°s da a√ß√£o do veneno no corpo para que, futuramente, haja um tratamento melhor adequado ao local mordido. No mundo, n√£o h√° tratamento adequado e com mais efic√°cia ao local ferido após a mordida.

Grupo de pesquisadores do Laboratório de Imunologia Celular Aplicada à Saúde, da Fiocruz-RO, em um dos experimentos.

Mauro Valentino Paloschi/Arquivo pessoal

"Nosso grupo de pesquisa j√° est√° h√° mais de 10 anos atuando na √°rea. Esse trabalho é só mais um complemento. O nosso objetivo é tentar contribuir e entender um pouco mais sobre como acontece o envenenamento ofídico", refor√ßou Mauro Valentino Paloschi, autor de uma das pesquisas que foi publicada na revista Scientific Reports, pertencente ao grupo Nature. O primeiro passo da pesquisa de Mauro foi dado em 2017 e est√° incluso em sua tese de doutorado.

O doutorando em Biologia Experimental da Universidade Federal de Rondônia (Unir) focou na enzima L-amino√°cido oxidase para entender o processo inflamatório causado por esse tipo de acidente. A enzima em quest√£o pertence à serpente Calloselasma rhodostoma, predominante na √Āsia.

O veneno da Calloselasma rhodostoma foi escolhido por conter ao menos 30% da L-amino√°cido oxidase, enzima também encontrada nas jararacas brasileiras, além de ser uma das principais que causam o efeito tóxico e ainda pouco estudada.

Células de defesa do estudo (neutrófilos) sendo ativadas após entrarem em contato com a toxina da serpente (Cr-LAAO). Aqui, os neutrófilos est√£o produzindo COX-2, que é uma das proteínas respons√°veis por produzir prostaglandina E2, uma das moléculas que aumentam a sensibilidade a dor.

Mauro Valentino Paloschi/Arquivo pessoal

"Mas ela [serpente] é conhecida popularmente como jararaca asi√°tica, porque o veneno dela é muito parecido com a da jararaca brasileira. O mecanismo de envenenamento é muito similar. Por uma quest√£o de logística e por ter mais dessa enzima, a gente acabou trabalhando com esse veneno", explicou.

O pesquisador explicou que j√° se sabia, por causa de estudos anteriores, que a L-amino√°cido oxidase ativa as células conhecidas como neutrófilos, uma das que fazem a defesa do organismo, migrando da corrente sanguínea em dire√ß√£o ao causador da les√£o.

Porém, o que n√£o se tinha compreendido até ent√£o era como essa ativa√ß√£o acontecia "porque h√° toda uma maquinaria para produzir esses sinais que v√£o combater a les√£o", segundo Mauro.

Veneno da serpente Calloselasma rhodostoma é analisado na pesquisa de Mauro Paloschi, doutorando em RO.

Wikimedia Commos/Reprodução

Ele também descobriu que essa enzima ativa uma proteína de extrema import√Ęncia ao processo inflamatório no corpo humano, chamada de fosfolipase.

"O processo inflamatório é bastante complexo. Tem v√°rias proteínas, tem v√°rias enzimas e de v√°rias células que est√£o envolvidas. É tudo interligado. Essa fosfolipase foi uma chave que a gente encontrou. Ela é uma das proteínas que s√£o ativadas durante o processo inflamatório. Nunca tinham visto isso anteriormente. E que ela é crucial ao mediador que causa dor no paciente", complementou Paloschi.

J√° a pesquisa do biomédico Charles Nunes Boeno vai atr√°s de compreender o processo entre o momento da mordida e a a√ß√£o direta do veneno no tecido muscular. O trabalho foi publicado no periódico suí√ßo Toxins e se estende desde seu mestrado, época em que decidiu estudar o mecanismo relacionado ao envenenamento de serpentes.

Para entender o processo, o doutorando analisou a proteína fosfolipase, presente em grande quantidade no veneno da serpente Bothrops jararacussu, espécie escolhida pelo pesquisador. Ela ocorre mais na regi√£o Sudeste/Sul do Brasil.

Bothrops jararacussu foi escolhida pelo doutorando Charles Boeno ao estudo.

Wikimedia Commos/Reprodução

"Quando a serpente tem isso no veneno, essa fosfolipase, após o acidente vai ocorrer uma a√ß√£o dessa proteína resultando em um processo inflamatório intenso, e quando ela executar o processo de envenenamento ofídico, que pode ser acidental ou induzido. Na maioria dos casos é acidental, pois s√£o pessoas que trabalham na ro√ßa, com agricultura que mais sofrem", explicou Boeno.

Charles ent√£o decidiu simular o envenenamento em camundongos inoculando a toxina no músculo do animal. A conclus√£o do pesquisador foi de que realmente o processo inflamatório acontece e, a partir disso, passou a observar como a célula afetada reage após o envenenamento.

"Só que as nossas células têm milh√Ķes de proteínas diferentes dentro e a gente escolheu essas proteínas relacionadas ao processo inflamatório, que é o que a gente chama de 'inflamassoma'. Ent√£o, essas proteínas ficam dentro das células de defesa e v√£o atuar principalmente no início do processo de inflama√ß√£o", disse.

O envenenamento da serpente Bothrops jararacussu é bastante intenso, segundo o pesquisador. Se uma pessoa é mordida na perna, a tendência é de que fique com sequelas graves, j√° que o tecido muscular acaba morrendo.

Vaso sanguíneo do músculo de camundongo após 3 horas da inocula√ß√£o de uma toxina (fosfolipase) do veneno de Bothrops jararacussu, mostrando que causa um acúmulo de células imunológicas no vaso e ao redor dele para combater a toxina.

Charles Nunes Boeno/Arquivo pessoal

Com a possível resposta sobre a din√Ęmica intracelular, Charles cita que ser√° possível melhorar os tratamentos que j√° existem no mundo atualmente para esse tipo de acidente, mas que ainda sim s√£o pouco eficazes quando o problema se volta ao ferimento e ao dano causado pela mordida.

"O envenenamento é uma doen√ßa negligenciada. É uma doen√ßa que n√£o tem tanta aten√ß√£o por parte das institui√ß√Ķes governamentais, de saúde, ou até mesmo as privadas, em rela√ß√£o a ter um tratamento, a ter uma medica√ß√£o. No nosso país, milh√Ķes de pessoas durante anos s√£o afetadas por isso. Por ano, em média, 94 mil pessoas sofrem acidentes ofídicos de diferentes espécies", explicou Charles.

No Brasil, as pessoas s√£o tratadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) apenas com soros antiofídicos específicos para os tipos de cobras e serpentes, que basicamente neutralizam o veneno que corre no sangue e inibe a sensa√ß√£o de dor, "mas n√£o tem nenhuma pomada, remédio para tratar e amenizar esse dano local. E, às vezes, aquela pessoa vai ter uma vida modificada até o seu fim porque ela pode ficar com mutila√ß√Ķes. É um problema de saúde ainda grave", conforme Charles Boeno.

Como se prevenir?

Segundo o biólogo Fl√°vio Terassini, de cada 10 acidentes no Brasil, sete ocorrem por jararacas. Esse, para ele, é um dos fatores mais importantes para se estudar o envenenamento dessas serpentes. "Até mesmo para outras propriedades medicinais. O soro é o único tratamento. O hospital deve ser procurado o mais breve possível. Caso contr√°rio, poder√° ter complica√ß√Ķes e até morrer".

De acordo com o Ministério da Saúde, o envenenamento acontece quando a serpente injeta "o conteúdo de suas gl√Ęndulas venenosas", porém nem toda mordida leva ao envenenamento.

Mesmo assim, o órg√£o lista alguns cuidados para evitar esse tipo de acidente, como:

O uso de botas de cano alto ou perneira de couro, botinas e sapatos pode evitar cerca de 80% dos acidentes;

Usar luvas de aparas de couro para manipular folhas secas, montes de lixo, lenha, palhas, etc. Não colocar as mãos em buracos. Cerca de 15% das picadas atingem mãos ou antebraços;

Cobras se abrigam em locais quentes, escuros e úmidos. Cuidado ao mexer em pilhas de lenha, palhadas de feij√£o, milho ou cana. Cuidado ao revirar cupinzeiros;

Onde h√° rato, h√° cobra. Limpar paióis e terreiros, n√£o deixar lixo acumulado. Fechar buracos de muros e frestas de portas;

Evitar acúmulo de lixo ou entulho, de pedras, tijolos, telhas e madeiras, bem como n√£o deixar mato alto ao redor das casas. Isso atrai e serve de abrigo para pequenos animais, que servem de alimentos às serpentes.

E o que NÃO se deve fazer?

Torniquete ou garrote;

Cortar o local da picada;

Perfurar ao redor do local da picada;

Colocar folhas, pó de café ou outros contaminantes;

Beber bebidas alcoólicas, querosene ou outros tóxicos.