O Carnaval e a Política do Pão e Circo

11 fev 2014

Quando o homem resolveu organizar-se em sociedade viu que precisava de dinheiro para manter as exigências básicas do povo e para isto, criou o tributo e as leis ou normas ou orçamentárias, com especificações da arrecadação e da destinação do que era apurado.

As leis orçamentárias nada mais são do que, o quê e quando se arrecadar e o planejamento para se determinar onde se deve gastar o que foi apurado de tributos e contribuições da população, que financia as suaspróprias necessidades. Quando tudo é bem aplicado a população reage com respeito ao governante, mas, quando o dinheiro é desviado fazendo com que o povo sofra e não tenha obras estruturantes, educação, saúde, segurança etc., as coisas tomam um rumo diferente e o governante passa a usar de certos artifícios populares para enganar a população. Ou seja, quando, o governante não age corretamente e desrespeita o dinheiro público, passa a usar de artifícios, em seu próprio bem, ludibriando e enganando a sociedade com a implementação de políticas popularescas financiando festas populares, tais como carnaval, por exemplo, numa autêntica “política do pão e circo”.

A “política do Pão e circo” (panem et circenses, no original em Latim) como ficou conhecida, era o modo pelo qual os líderes romanos lidavam com a população em geral, para mantê-la fiel à ordem estabelecida e conquistar o seu apoio. Esta frase tem origem na Sátira do humorista e poeta romano Juvenal, que viveu por volta do ano 100 D.C (depois de Cristo).No seu contexto original, criticava a falta de informações do povo romano, que não tinha qualquer interesse em assuntos políticos, e só se preocupava com as festas, as bebidas e os divertimentos. Em suma, era assim – como ainda hoje – que os imperadores romanos – hoje prefeitos e governadores – enganavam o povo financiando festas populares em que se davam pelas ruas o “pão” como migalhas de alimentos e a “diversão”, incluindo a dança e a bebida, simbolizando o “circo”. A grande vantagem desta atitude é que o povo ficava – e ainda hoje fica – alienado e contente e a popularidade do governante era consolidada.

Mas, sem muita delonga, vamos ao que nos interessa. Tenho ouvido e lido notícias, mesmo de longe, de que o Prefeito de nossa Conceição estará financiando com dinheiro do contribuinte um carnaval com pequenas e poucas atrações, o que me faz pensar que está ele agindo com muita lucidez e responsabilidade, pois, dinheiro público não é para financiar carnaval ou qualquer festa popular, que nenhum retorno ou benefício vem para os cofres públicos.

Ainda hoje vi com tristeza, principalmente no facebook, muita gente alienada discutindo que o poder público tem a obrigação de dar a diversão e a bebida no carnaval, com dinheiro público, para que uns poucos possam se divertir em detrimento da grande maioria que necessita de investimentos em educação, saúde, saneamento e investimentos em obras que servirão para o futuro da sociedade. E o pior de tudo isto é que, a grande maioria que reclama é de jovens que não têm o menor conhecimento do mal que estão fazendo si.

Eu admiro a juventude quando vai as ruas reivindicar a aplicação do dinheiro público em saneamento básico como uma extensão da saúde, maiores investimentos em vias públicas, aquisição de melhores equipamentos para favorecer a educação, a despoluição dos mananciais de águas e não porque não contratou uma banda para fazer barulhos durante uma festa popular como é o carnaval. Eu sou do tempo em que se tinha a ideia de que carnaval era e é uma festa privada feita em clubes fechados, paga com o dinheiro de quem queria se divertir. Aliás, acho que ainda hoje deve ser assim.

Vou deixar no ar uma pergunta para quem critica os governantes que não querem contratar grandes atrações popularespara o carnaval: o que tem o poder público a ver com festa carnavalesca em uma cidade como Conceição, que não tem a menor tradição, vocação e nem atrações turísticas para tal? Não queiram me responder a esta pergunta comparando o carnaval com as tradicionais festas juninas que atraem milhares de pessoas, que gastam e investem dinheiro que é revertido para cada pessoa, individualmente, que vive trabalhando naquele momento, já que, como se tem visto, nestas festividades todos ganham com a indústria do turismo.

Não queiram responder a minha pergunta fazendo comparações com Recife, Salvador, Rio de Janeiro etc. que fazem investimentos vultosos em carnaval como forma de atrair o turismo. Lá diferente de nós que não temos tradições turísticas, o carnaval é um negócio rentável e lucrativo. Cá entre nós, o carnaval é uma festa que não tem o menor significado, a não ser para uns poucos que ficam esperando que a Administração Municipal invista os minguados recursos do povo em futilidades que não levam a nada e nem a lugar algum.

A nossa juventude ao invés de ficar criticando os governantes que querem respeitar o dinheiro público, devem primeiro, pensar que dinheiro público é para ser investido em retorno social e para o bem de todos. Quanta tristeza me dá quando vejo discussões de jovens sobre coisas sem nenhuma ligação com o desenvolvimento social. Jovem alienado é pior do que um analfabeto funcional que conhece as letras, mas, não conhece o significado do que está escrito.

Alfredo Sá Neto

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