Quero compartilhar com vocês este artigo que traça dentre outras coisas a importância intelectual do *Maestro José Siqueira* no campo acadêmico, bem como a figura crítica do professor que no ápice da Ditadura Militar não se calou em sucessivas críticas. Considerado uma referência internacional na música clássica ele fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Ordem dos Músicos do Brasil e o curso de música da Universidade Federal do Rio De Janeiro UFRJ .

Sua biografia nos orgulha como grande paraibano e como grande filho de Conceição do Piancó. JOSÉ SIQUEIRA, UM LÍDER MUSICAL

Resumo

Primeira parte da pesquisa em andamento sobre José Siqueira (1907-1985) às voltas com a sua Suíte Sertaneja para violoncelo e piano, esta comunicação consiste na contextualização histórica do compositor. A origem sertaneja, o testemunho de Siqueira perante fatos históricos como o cangaço, o modernismo de Princesa-PB nos anos 20 e a coluna Prestes são o ponto de partida para a compreensão de suas ações de cunho político social, como a fundação da Orquestra Sinfônica Nacional e a Ordem dos Músicos do Brasil.

Palavras-chave: José Siqueira – cangaço – Anos 20 .

1. Introdução

Este trabalho consiste em analisar algumas ações de cunho político social do compositor paraibano José de Lima Siqueira, como a fundação da Orquestra Sinfônica Nacional e a Ordem dos Músicos do Brasil, tendo como referências fatores históricos.

Trata-se, na verdade, da primeira parte da pesquisa para a dissertação do programa de mestrado em música que ora estou cursando.

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A dissertação a ser conduzida busca compreender o homem e a obra, com ênfase no primeiro, sob uma perspectiva qualitativa. Trata-se de um estudo de caso cujo tema transversal é o compositor José de Lima Siqueira – nascido em Conceição, estado da Paraíba, em 1907, e falecido no Rio de Janeiro, em 1985 – às voltas com a sua “Suíte Sertaneja para violoncelo e piano”, composta em 1949.

Como esta suíte constitui-se de duas danças da tradição oral – o baião e o coco de engenho – entremeadas por uma cantiga de trabalho – o aboio, utilizado na condução do gado, espécie de ícone musical do sertão nordestino brasileiro –, penso ser relevante o meio cultural na formação e conduta composicional de José Siqueira. O estudo pretende desvendar os procedimentos de transliteração musical dessas manifestações da cultura local. Para tanto será adotado o “modelo tripartite”, de Nattiez (2002: 7-39), explorando não apenas os convencionais aspectos morfológicos e estilísticos, mas, principalmente, os estéticos ou semiológicos. Outrossim, a investigação visa apreender o contexto sócio-cultural que circunda a concepção da obra, aproximando-se da análise etnomusicológica.

Deste contexto sócio-cultural que circunda a origem do compositor é que trata este trabalho.

2. Siqueira, testemunha ocular da história.

2.1 A família Siqueira, liderança cultural em Conceição

Ribeiro (1963: 20) descreve o nascimento de José Siqueira na noite de São João de 1907 em Conceição do Piancó, alto sertão da Paraíba. Atesta a ascendência de músicos na família materna e a profissão de seu pai: mestre de banda.

João Batista de Siqueira Cavalcanti era sim mestre de banda, mas a profissão que dava o sustento à família era a de advogado provisionado. A família, que morava em Triunfo – PE, veio parar na Paraíba depois do casamento das filhas, primeiro Adalcina, depois a mais velha Armênia.

José Siqueira, entre muitos outros moradores, foi alfabetizado por Armênia, que no intuito de suprir a falta de escola da cidade, montou uma em sua residência. Através de quermesses e feira de caridade, ela também conseguiu que fosse erguida a Matriz e adquirido um harmônio. A irmã Armênia e o seu pai fomentavam a cultura na pequena cidade de Conceição. A primeira ensinava, escrevia e compunha peças e autos para serem encenados

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na Igreja e João Batista comandava a Banda Cordão Encarnado enquanto recolhia melodias da cultura popular. Siqueira, o futuro compositor, tinha ao seu redor exemplos de liderança e de valorização da tradição.

2.2 O cangaço – Início do séc. XX

O cangaço será um segundo exemplo de liderança, mesmo que em forma de banditismo, que Siqueira presencia quando menino.

Chandler (1980: 26-29) relaciona a desorganização social, a ilegalidade, a desordem no período da República Velha, além das secas, oscilações econômicas para o aparecimento do cangaço. O certo é que o sertanejo convivia com esta realidade, um bando de homens e mulheres que através de saques e assaltos aterrorizaram o sertão nordestino até o início dos anos 40.

Siqueira brincava com seus amigos de cangaceiros e volante (força policial). Na brincadeira infantil, Siqueira sempre estava do lado dos bandidos. Segundo Ribeiro (1963:26 ) é foi um dos motivos para que o João Batista enviasse Siqueira para o seminário, em Triunfo. O pai encarava este espírito de liderança como uma ameaça.

O pequeno Siqueira não demorará no seminário, de volta à Conceição volta as atividades como músico, aos catorze, órfão de pai, já é um homem que lidera um pequeno grupo: Uma Banda de Músicos. Regeu a de Bonito de Santa Fé, integrou, como músico, a de Patos de Espinhara, que era regida pelo seu irmão João Batista, ambas no interior da Paraíba. Em 1923, Siqueira chegou em Princesa à convite de José Pereira. Mais um líder no caminho de Siqueira.

2.3 Princesa e José Pereira

José Pereira (1884-1949), herdou após a morte do pai, em 1905, a chefia política da cidade. Abandonando o curso de Direito que cursava em Recife, aos 21 anos, assumiu a direção dos negócios da família, e se tornou um dos políticos mais influentes da região.

Em 1923, José Siqueira é convidado por José Pereira para reger a banda da cidade, havia só três anos que Princesa se elevara à categoria de cidade. O prestígio do Coronel José Pereira junto ao Presidente da República Epitácio Pessoa havia trazido incentivos à região para obras contra a seca, barragens, açudes e estradas de rodagens.

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A afluência de trabalhadores, funcionários federais, contratantes, empreiteiros e elementos estranhos ao serviço, que vinham como especuladores, criou a angústia do espaço. Não havia acomodações para tantos forasteiros. A abundância de dinheiro e a necessidade de cômodos agitaram a cidade. (Apud Revista do Centenário de José Pereira, 1984:9).

Princesa significará para Siqueira o encontro com a modernidade.

Um dos destaques da cultura de Princesa, o professor Waldemar Emídio de Miranda, era pernambucano. “A situação geográfica de Princesa alijou-a, na prática das redes ro

doviárias federal e estadual, ilhando-a em relação à capital paraibana e aproximando-a às cidades pernambucanas limítrofes, através destas, ao Recife.” (Rodrigues,1976:4). Miranda chegou à Princesa nos início dos anos 20 e foi responsável pela divulgação das novas idéias, vindas diretamente de São Paulo, da Semana de 22. Princesa também recebia, à mesma época, outros signos modernos: o automóvel, a jazz band, o cinema, o futebol, a luz elétrica.

Em 1925, Siqueira seguiu para João Pessoa para, como soldado músico, servir o exército. José Siqueira não ficou para ver o movimento liderado por José Pereira, que em Março de 1930 sublevou o município de Princesa contra o governo paraibano.

Acredito que a convivência com este peculiar coronel, ao mesmo tempo arcaico e progressista, tenha influenciado Siqueira nas suas futuras ações políticas.

2.4 O exército, a Coluna Prestes, Juarez Távora e os ideais comunistas.

José Siqueira serviu ao exército no 22.º Batalhão de Caçadores, em João Pessoa, foi admitido como 1º trompetista da Banda de Música. O ano era 1925. Apenas dois meses após seu alistamento, Siqueira entraria em contato com mais um fato histórico do seu tempo: A Coluna Prestes, movimento liderado por Luís Carlos Prestes: o “Cavaleiro da Esperança”.

O 22º B.C foi mobilizado, para a repressão do movimento revolucionário, e segue para o Maranhão. Siqueira encontra no comunismo o que faltava aos heróicos cangaceiros: uma bandeira cívica. A sua consciência democrática despertava e distinguia nitidamente que o caminho da arte é também o caminho da liberdade. (Ribeiro, 1963:50).

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O 22º B.C. chega até o interior de Pernambuco no encalço da coluna, sendo nas margens do São Francisco que Siqueira adoeceu, vítima de impaludismo. Após vencer a doença e completado o tempo de serviço, pediu baixa e seguiu e para o Rio de Janeiro.

3. Um sertanejo na cidade grande

3.1 Primeiros passos.

Siqueira chegou à capital da república, o Rio de Janeiro, em 1927, tinha 20 anos. No dia seguinte da sua chegada, é aprovado, em concurso, para a Banda Sinfônica da Escola Militar, em Realengo. Segue seus estudos de música que, até então tinham sido irregulares e autodidatas. Estudou teoria, regência, composição e piano no Instituto Nacional de Música graduando-se em 1933. Francisco Braga, Paulo Silva, Walter Burle-Marx e Luís Amabile foram alguns dos seus professores.

Em 1937, assumiu a cátedra de harmonia no Instituto Nacional de Música. Em 1938 já foi alvo da crítica de Eurico Nogueira França.

Irmão espiritual de vários compositores, do norte ou do nordeste, que lograram, no Rio de Janeiro, uma consagração bastante difundida, o sr. José Siqueira guarda, entretanto, a perfeição interior de quem, nem ao menos, teve que aderir ao gosto diferente e evoluído da metrópole. (1938:59)

A crítica se refere ao estilo neoclássico do compositor, que começara a compor em 1933 . Siqueira, a partir de 1943, passou a adotar o nacionalismo e segundo Neves (1981:74), firma-se como: “O melhor representante da escola nordestina , escrevendo o

bra abundante que abrange praticamente todos os gêneros musicais e que explora as prin

cipais características étnicas do folclore de sua região de origem…”

3.2 Socialização da arte, organização e valorização da classe musical.

Paralelamente ao seu trabalho composicional, sua tendência para a liderança e a vontade de reger o fez organizar sua própria orquestra. A orquestra Euterpe teve o privilégio de ser a primeira orquestra irradiada nas ondas hertzianas do Rio de Janeiro. A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Roquette-Pinto foi mais tarde transformada na Rádio Ministério da Educação.

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Seu intuito era utilizar a música para a educação do povo. Defendia o fim do monopólio da música erudita pelos ricos. Encabeçou durante 10 anos o movimento que consegue, em 1940, criar a Orquestra Sinfônica Brasileira.

Em 1948, quando se encontrava nos Estados Unidos, é afastado do cargo. Um almirante é eleito para presidir a orquestra. É a ditadura Vargas.

Siqueira, entretanto, prosseguiu com suas ações político – musicais, a Sociedade Artística Internacional fundada em 1946 é um dos exemplos. Criada para ser um núcleo de intercâmbio entre artistas nacionais e estrangeiros trouxe ao Rio de Janeiro vários intérpretes, de renome internacional, nos vários setores musicais.

Em 1949 criou a Sinfônica do Rio de Janeiro que durou pouco tempo. Na ausência de uma orquestra para divulgar a música sinfônica, fundou o Clube do Disco.

Na década de 50 paralelamente à sua dedicação à composição, formou-se em Direito. A defesa da classe artística continuava sendo sua meta. Posteriormente, fundou, organizou e presidiu a Ordem dos Músicos do Brasil.(1960).

As comemorações pela passagem dos seus trinta anos de composição, em 1963, marcariam o auge da liderança de Siqueira frente à classe musical.

O regime militar de 1964 proíbe o maestro de reger, alega que a orquestra sob seu comando pode executar o Hino da Internacional Socialista. A privação da sua atividade artística e sua opção pelo comunismo o leva a vários países do leste europeu.

Raras são as citações em enciclopédias e livros da sua opção política, fato explicado pela censura que acompanhou todo o regime militar. O perfil de Siqueira como militante comunista ainda está por ser escrito.

4. Conclusão

Este trabalho pretendeu estabelecer a influência do testemunho ocular de José Siqueira diante de fatores históricos. As ações concretas na classe musical do seu tempo mediante sua liderança parece ser um reflexo, em maior ou menor intensidade, do cangaço, do coronel José Pereira, da moderna Princesa dos anos 20, da coluna Prestes, do encontro com os ideais comunista de Juarez Távora, enfim, da caldeira do sertão na qual José Siqueira foi forjado.

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Josélia Ramalho Vieira
jramalhovieira@hotmail.com
Universidade Federal da Paraíba

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